
Descendentes de canibais pedem perdão à família de missionário devorado há 170 anos
Os herdeiros de um homem que foi devorado por canibais em uma pequena ilha do Pacífico há 170 anos voltaram pela primeira vez ao local da morte de seu ancestral para fazer parte de uma singular cerimônia de reconciliação. O ritual se deu na pequena ilha de Erromango, uma das ilhas que compõem a nação de Vanuatu, onde em 1839 os indígenas mataram e devoraram o reverendo John Williams, um dos mais reconhecidos missionário de seu tempo, e seu colega James Harris. Desde então os nativos crêem ser vítimas de uma “maldição”, que querem desfazer agora que o catolicismo é cada vez mais forte na ilha. “O povo de Erromango sempre teve sobre si o peso de ter matado um missionário. Eles acham que foram amaldiçoados e é por isso que essa reconciliação é tão importante”, disse à BBC o presidente de Vanuatu, Iolo Johnson Abbil. “Desde que passamos a nos considerar como um país cristão, era necessário que Erromango passasse por isso.”
Canibalismo
Em 1816, aos 20 anos de idade, John Williams abraçou a vida de missionário dedicando-se à catequização de indígenas da Polinésia sob os auspícios da Sociedade Missionária de Londres. Dedicou-se à atividade por mais de duas décadas. Em sua última viagem, ele aportou em 1839 a bordo do navio Camden na baía de Dillons, no arquipélago a mais de 1,5 mil quilômetros a leste da Austrália que ainda viria a se tornar Vanuatu. Ali, dias antes, nativos de Erromango haviam sido mortos por comerciantes europeus de sândalo. Em meio à hostilidade, os dois foram mortos e canibalizados pelos nativos, assim que puseram os pés em terra.
“Harris, que estava mais adiante, foi abatido a clavas e morto. John Williams se virou e tentou correr para o mar. Eles o alcançaram na costa. Ele também foi abatido, flechado e morreu nas águas rasas”, contou um dos descendentes do missionário, Charles Milner-Williams, 65.
O antropólogo Ralph Regenvanu, membro do Parlamento de Vanuatu e um dos que propuseram a reconciliação, disse que os homens provavelmente foram mortos porque representavam a “incursão” do homem branco na terra indígena.
“O canibalismo era praticado de forma de ritual e considerada uma atividade sagrada. Muitas vezes era uma maneira de derrotar uma ameaça, de absorver o poder do inimigo”, disse o antropólogo.
“John Williams pode ter sido morto e devorado porque representava essa ameaça, essa incursão da civilização europeia que estava chegando a Erromango naquela época.”
Reconciliação
Na cerimônia de reconciliação, à qual compareceram 18 descendentes do missionário Williams, a morte dos dois homens foi reencenada. Dezenas de descendentes dos moradores de Erromango à época fizeram fila para pedir o perdão da família. Como demonstração de afeto e respeito, a baía de Dillons, onde ocorreu o incidente, foi renomeada de baía de Williams. “A reconciliação é parte da nossa cultura. Pedir perdão é uma parte do cerimonial, mas não a única”, disse Regenvanu. “A reconciliação requer algo de ambos os lados, há sempre o elemento da troca.” A família de Williams concordou em amparar a educação de uma garota de sete anos de idade, que foi ritualmente “entregue” à família como compensação pela perda do missionário. Para o parente de Williams, Charles, o ritual foi emocionante.
“Vim sem saber o que esperar e saio, curiosamente, com minha fé restaurada e me sentindo renovado”, afirmou Milner-Williams, que vive em Hampshire, no sul da Inglaterra.
“Pensei que após 170 anos eu não sentiria nenhuma emoção, mas a pureza dos sentimentos, o arrependimento genuíno e a tristeza, de partir o coração, foram bastante tocantes.”
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Etnolinguista e missionária da JOCUM, ela defende a presença de evangélicos nas tribos do país
Marcelo Santos
Quando saiu de Belo Horizonte (MG) aos 17 anos para juntar-se à organização Jovens Com Uma Missão (JOCUM), Bráulia Inês Ribeiro, 45, não imaginava que se tornaria uma das missionárias mais conhecidas do Brasil. Também não fazia ideia de que, por anos a fio, trabalharia entre povos isolados da Amazônia, o que a tornaria a principal porta-voz da missão em questões indígenas. Ela também não poderia imaginar que, em 2005, estaria no centro de uma polêmica reportagem de TV, na qual a JOCUM seria acusada de promover a destruição da cultura dos índios por tentar livrar da morte duas crianças suruwahas, do Amazonas - como noticiado por Graça/Show da Fé, na reportagem Um crime diferente (edição 76).
Bráulia, na época, era presidente da missão, que atuava com certa tranquilidade entre os silvícolas. Mas a tal reportagem de TV, cuja repercussão perdura até hoje - desdobrando-se em outras acusações infundadas, como mostrado em Graça/Show da Fé na reportagem Dossiê do barulho (edição 111) -, colocou a JOCUM no centro da delicada discussão acerca da presença missionária entre os índios brasileiros.
Casada com o missionário Reinaldo Cazão Ribeiro, dirigente da JOCUM de Porto Velho (RO), Bráulia é formada em etnolinguística pela Universidade das Nações, no Havaí (EUA), e é mestre em Linguística Antropológica pela Universidade Federal de Rondônia. Autora do livro O chamado Radical (editora Atos) - no qual relata algumas de suas primeiras experiências entre os índios -, ela também presta assessoria linguística e antropológica às equipes da instituição que trabalham nas tribos, além de lecionar no campus da Universidade das Nações, em Porto Velho.
Ela atendeu a reportagem de Graça/Show da Fé para falar sobre o atual e preocupante cenário para as missões evangélicas entre os indígenas, as quais, cada vez mais, encontram diversas dificuldades para cumprir a vocação de servir os índios e proclamar o Evangelho da salvação.
A JOCUM tem sido atacada devido à sua presença entre os índios. São várias acusações, que chegam por meio de programas de TV, dossiês e reportagens em revistas de circulação nacional. Por que a missão tem protagonizado essa polêmica?
Creio que fomos os primeiros a expor publicamente as incoerências da política indigenista brasileira, principalmente no caso da Tititu, a menina suruwaha que nasceu com defeito congênito e deveria ter sido operada pelo Hospital das Clínicas de São Paulo. A polêmica sobre a questão, o procurador do Ministério Público dizendo que ela não poderia ser operada simplesmente porque era indígena, a incompetência flagrante da Fundação Nacional do Indio (Funai) e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para lidar com o caso mostraram ao Brasil o lado sombrio do indigenismo tão romântico praticado no país. E a JOCUM foi a protagonista nisso. Depois desse acontecimento, passamos a lidar com a mídia nacional constantemente.
O caso de Tititu foi emblemático. Mas a criança, depois de operada, morreu no início deste ano. Por quê?
Depois da cirurgia, a menina precisava de cuidados médicos periódicos. A medicação não poderia ser interrompida de repente, pois poderia causar algum tipo de dano renal e, consequentemente, uma desidratação fatal. O pai dela é inteligente e tinha muito compromisso com a saúde da filha. Moisés, nosso missionário na área, ensinou Naru, o pai, a medicá-Ia, que o fez corretamente. Mas a Funasa nem sempre enviava a medicação a tempo, apesar de ser um remédio barato e bastante acessível. Muitas vezes, nossa equipe teve de ligar para Manaus e até para Brasília, a fim de exigir que a Funasa enviasse a medicação. Houve uma ocasião em que eles chegaram a jogar, de avião, um medicamento errado, muito mais forte. Se o missionário não estivesse na área, a menina teria morrido ao receber aquele remédio. Em 2008, fomos proibidos, oficialmente, de estar na área, e, em janeiro deste ano, a menina morreu de desidratação, o que só pode ter sido causado pela falta do medicamento. Imagino que seus pais devem ter sofrido muito ao perder a menina por quem tanto lutaram e que sofreram para salvar. Tivemos acesso à gravação da conversa do técnico de saúde que estava na área e do médico que lhe dava apoio na cidade de Lábrea (AM). Parecia haver um desconhecimento total do prontuário dela e da medicação que ela deveria tomar.
A denúncia sobre o infanticídio (a prática indígena de assassinar bebês e crianças com defeitos congênitos) "aqueceu" a discussão sobre o papel dos missionários nas tribos. Enquanto uns acreditam que os índios devem ter o direito de conhecer Jesus, outros defendem que o papel do missionário deve limitar-se à prestação de ajuda humanitária. Há um consenso sobre como fazer missão transcultural?
Creio que limitar o acesso de um grupo à informação de qualquer espécie é privá-Io de um direito humano essencial. As missões transculturais, em sua grande maioria, são conscienciosas e preparam bem seus missionários. Levar o conhecimento do Evangelho ao índio não é um ato de imposição religiosa, mas consiste em dar a eles acesso a uma informação que, na verdade, tem por objetivo completar sua visão de mundo, não destruir tal entendimento, como alegam alguns. O índio não é frágil nem idiota, como pretendem os defensores do isolamento cultural. Eles sabem muito bem separar o "joio do trigo" e são capazes de aceitar apenas o que Ihes interessa.
O que a Igreja Evangélica precisa saber sobre a presença missionária entre os indígenas, para que o debate sobre as missões junto aos índios ultrapasse os guetos religiosos e contagie toda a sociedade?
A questão principal é nossa visão de quem é o índio. Eles são seres humanos como nós e, portanto, possuem direito à cidadania plena, a garantias essenciais asseguradas pelo governo, ou serão eles grupos humanos "primitivos", que têm de ser preservados de alguma forma? Se permitirmos que o governo trate seus cidadãos indígenas com injustiça, fundamentado em uma falácia sobre sua identidade, seremos coniventes com uma visão de sociedade que, um dia, vai nos prejudicar diretamente. Nosso papel como sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13, 14) é prover a sociedade com referências sobre o valor intrínseco e incondicional de cada indivíduo, requerendo de nossos governantes leis que respeitem esse valor. A Igreja Evangélica no Brasil tem sido conivente com a visão governamental dos índios incapazes e menos humanos. Por muitos anos, temos permitido que uma legislação preconceituosa separe humanos de humanos e determine a falta de liberdade e o apartheid civil dos povos indígenas. A questão dos índios, portanto, não é religiosa, mas de direitos humanos essenciais, liberdade civil e justiça social.
(Revista Graça Show da Fé, edição 124)
Mário Barreto França
Levanta o teu olhar, ó mocidade crente,
Até onde puder chegar teu sonho ardente!
E vê todo esplendor de nossa Pátria amada,
Toda a grandeza, toda a fortuna ignorada,
Que seriam no mundo o máximo luzeiro,
Se as soubesse explorar o povo brasileiro!
Porém tu — mocidade! — aceita o sacrifício
De, com a Bíblia na mão, ir combater o vício,
A miséria, a indolência e o pecado infecundo
Dos que vivem sem fé, chorando pelo mundo.. .
Desfralda o pavilhão do Evangelho de Cristo
E acorda este país para a crença, porque isto
É o problema moral de maior relevância
Pra salvar a velhice e restaurar a infância
Ou para entusiasmar a pobre humanidade
Nas lutas pelo bem, no amor pela verdade.
A Crença é que desperta o gosto pelo estudo,
O amor pelo trabalho empreendedor, por tudo
Que representa, em si, o progresso de um povo!
Anuncia, portanto, esse amor sempre novo
Que Cristo nos legou e no qual te iluminas,
Sorvendo a inspiração nas páginas divinas!
Em ti é que o Brasil descansa o seu futuro!
E, que farás, então, para vê-lo seguro
Na base do progresso e à vanguarda do mundo,
Cristãmente feliz, sabiamente fecundo?
Olha-o na solidão cruel do extremo norte!
Inculto, sendo rico; estéril, sendo forte!
Contempla-o no Nordeste, entre as secas tremendas;
Ali, nesses sertões, da crendice e das lendas,
De anônimos heróis ou míseros escravos,
É que a Pátria suporta os maiores agravos...
É o Brasil de Goiás, de Minas, Mato Grosso,
Do Amazonas, Pará... desse eterno colosso,
Que dorme o sonho vão da força adormecida
E anseia despertar para o esplendor da vida!
É o Brasil infeliz das tribos decadentes,
Expostas à cruel exploração das gentes,
Donos de tanta cousa é sem direito a nada,
No império colossal da mata torturada.
É o Brasil de São Paulo, a rir nos cafezais,
Brasil do industrial, do garimpeiro audaz;
Brasil do extremo sul, dos pampas verdejantes
Que, coberto de bois, vão se perder distantes...
É o Brasil do campônio e do honesto operário,
Do que arrasta na vida o trágico fadário
De ver o seu labor tão mal recompensado,
Mas sempre esperançoso e sempre conformado...
Brasil comercial, ou Brasil idealista,
A tudo — mocidade! — alonga a tua vista,
E desfralda com fé a bandeira da paz,
E prega a salvação, e não te cales mais!
Levanta o teu olhar, ó mocidade crente,
Até onde puder chegar teu sonho ardente!
E, a crença a proclamar sob este céu de anil,
Conquista para Cristo o povo do Brasil!
(Extraído do livro Antologia Missionária , da Junta de Missões Nacionais.)
(Florilégio Cristão, Rosalee M. Appleby)
Vivemos em um país com 257 tribos indígenas perfazendo uma população aproximada de 364.000 pessoas. Segundo o pesquisador Paulo Bottrel(1) apenas 4 etnias (Katuena, Mawayana, Wai-Wai e Xereu) possuem a Bíblia completa, 34 dispõem do Novo Testamento e outras 59 contam com porções bíblicas. Entretanto mais de 120 tribos necessitam urgentemente da tradução das Escrituras. Apesar das 25 Agências Missionárias que bravamente atuam entre os índios em nosso país ainda contamos com um vasto campo que necessita do evangelho e 103 grupos permanecem sem presença missionária.
É certo que o desafio vai muito além das estatísticas e das palavras, pois é prefigurada por faces, vidas, histórias e culturas milenares as quais tem sofrido ao longo dos séculos a devassa dos conquistadores, a forte imposição sócioeconômica, etnofagias e perdas culturais.
Em meio a todo este quadro há necessidade gritante de homens e mulheres que se disponham a encarar a transmissão do evangelho valorizando o homem e sua cultura dentro de uma esfera de compreensão lingüística e aplicabilidade social, o que envolve o ultrapassar de várias barreiras. Uma delas é o estudo, registro, preservação, uso e valorização das línguas maternas.
O Apelo das Minorias
No contexto sul-americano nosso país possui a maior densidade lingüística e diversidade genética e, paradoxalmente, uma das menores concentrações demográficas por língua falada. As 185 línguas indígenas são distribuídas em 41 famílias, dois troncos e uma variedade desconhecida de línguas isoladas(2). Em meio a esta grande diversidade apenas 3 etnias (Tikuna, Kaingang e Kaiwá) possuem mais de 20.000 pessoas e a média de falantes por língua é de 196 pessoas. 53 povos têm menos de 100 indivíduos e há aqueles com menos de 10 representantes como os Akunsu, com 7 pessoas, os Arua com 6 e os Juma também com 7 indivíduos. Quando pensamos em grupos indígenas nos confrontamos com a realidade de povos minoritários.
Nos anos 80 pesquisadores do Museu Goeldi encontraram os dois últimos falantes do Puruborá. Em 1995 foi identificado um grupo arredio como sendo falante do até então desconhecido Canoê(3) e Pierre Grenand reconhece a existência de 52 grupos ainda sem contato com o mundo exterior cujas línguas não foram estudadas, praticamente todas minoritárias.
O Brasil evangélico não indígena, por sua vez, experimenta desde os anos 80 um rápido crescimento tanto em número de templos como de convertidos, motivo de louvor a Deus. Isto por outro lado têm nos levado a desenvolver uma missiologia mais pragmática, que cultua os resultados, do que Escriturística, que valoriza a Palavra. Assim tanto a expectativa missionária por parte do corpo evangélico nacional quanto à prática no plantio de igrejas valoriza o quantitativo. E isto não será encontrado no universo indígena, pois a conversão de toda uma tribo pode representar, em alguns casos, apenas uma dúzia de pessoas. Precisamos ser relembrados da proposta de Jesus: tornar-se conhecido dentre todos os povos, tribos línguas e nações da terra(4) e isto jamais acontecerá enquanto não alcançarmos os grupos minoritários. Precisamos de uma Igreja apaixonada por Jesus e disposta a gastar bastante tempo e recursos no preparo de seus obreiros a fim de fazer o Evangelho de Cristo conhecido entre todos os povos, também os minoritários.
O Apelo da Subsistência Lingüística
Michael Kraus(5) afirma que 27% das línguas sul-americanas não são mais aprendidas pelas crianças. Isto significa que um número cada vez maior de crianças indígenas perde seu poder de comunicação a cada dia. Isto possui raízes diferenciadas que vai desde a imposição socioeconômica nas tribos mais próximas dos vilarejos e povoados até a falta de uma proposta educacional na língua materna, fazendo-os migrar para o português.
Rodrigues(6) estima que, na época da conquista, eram faladas 1273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Luciana Storto delata uma crise sociolingüística no estado de Rondônia onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais usadas pelas crianças e por terem um número pequeno de falantes.
Precisamos perceber que a perda lingüística está associada às perdas culturais irreparáveis como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas. Perde-se também a ponte de comunicação para um pleno entendimento do evangelho. No processo de transição, quando a língua materna é perdida, normalmente há o que podemos chamar de ‘geração perdida’, um vácuo cultural que normalmente atinge uma geração inteira. Ou seja, no processo de perda lingüística e migração para o português, os grupos indígenas normalmente passam por um processo de adaptação quando não possuem mais fluência na antiga língua materna e também não aprenderam o suficiente do português para uma comunicação mais profunda, processo que em média dura 30 anos. Este é um momento de perigo onde a identidade indígena é auto-questionada, seus valores perdidos e sobretudo seu poder de comunicação. A presença missionária catalogando, analisando e registrando a língua indígena a valoriza perante seu próprio povo e abre caminho para sua preservação. O Evangelho assim não apenas responde os questionamentos da alma mas contribui para a sobrevivência cultural.
O Apelo da Tradução Bíblica
‘Se Deus nos ama, por que Ele não fala a nossa língua?’ Estas palavras impactaram a mente de William Cameron Townsend quando trabalhava com o povo Cakchiquel da Guatemala desde 1919. Após ser despertado para a necessidade de comunicar o evangelho na língua materna de cada povo ele se dispôs a fundar a SIL (Sociedade Internacional de Lingüística) que atua perseverantemente na tradução das Escrituras. Mas esta não é apenas uma preocupação moderna. Martinho Lutero, reformador protestante, percebeu rapidamente a incapacidade da Igreja conhecer a Deus sem conhecer a Palavra e assim lançou em 1534 a primeira edição da Bíblia por ele traduzida.
A força missionária tem sido ao longo das décadas um divisor de águas na subsistência das línguas indígenas brasileiras sob o esforço da SIL (7) e Missão Novas Tribos do Brasil dentre outras Agências missionárias e atualmente novas organizações como ALEM8 tem liderado o interesse pela tradução bíblica. Boa parte devido aos nossos preciosos irmãos norte-americanos que valorosamente trabalharam e trabalham na análise e grafia lingüística e tradução da Palavra para vários idiomas, como o caso do missionário Robert Hawkins que dedicou 54 anos de sua vida traduzindo a Bíblia completa para a língua Wai-Wai.
O presente apelo é por obreiros brasileiros, com desejo de se esmerarem no estudo lingüístico e se prepararem da melhor forma possível para transmitir o evangelho a mais de 120 línguas no Brasil Indígena.
Conclusão
Cerca de 3 anos atrás, quando estávamos integralmente envolvidos com a evangelização dos Konkombas em Gana na África, participei de uma conferência em Chicago onde se reuniam missiólogos e missionários de boa parte do mundo. Muitos temas eram estudados mas sobretudo havia oportunidade para desafios missionários nas preleções da noite. Em minha sessão, falando sobre povos ainda não alcançados, tentei confrontar o auditório com um silogismo bíblico de responsabilidade na comunicação do evangelho dizendo: ‘...em Gana a Igreja fortemente expressiva no sul do país ainda não se despertou para as quase 100 tribos não alcançadas ao norte, dentre elas os Konkombas-Bimonkpeln com os quais trabalhamos. Infelizmente ainda é necessário o envio de missionários estrangeiros para o alcance das tribos ao norte porque a Igreja dorme’.
Na preleção a seguir um norte americano falaria sobre o desenvolvimento de igrejas autóctones. Ele iniciou seu sermão mais ou menos da seguinte forma: “Fui missionário por mais de 20 anos na Amazônia brasileira entre indígenas ainda não alcançados pois apesar da existência de milhões de evangélicos naquele país não havia missionários suficientes. Isto por que a Igreja dorme.”
Senti-me muito constrangido mas reconheci, infelizmente, que suas palavras não estavam tão longe da verdade. É possível mudar.
Notas:
1 Responsável pelo banco de dados da AMTB
2 Segundo Aryon Rodrigues, ‘Línguas Indígenas – 500 anos de descobertas e perdas'
3 Segundo relato de Pierre e Fraçoise Grenand
4 Apocalipse 5:9
5 Michael Krauss - The world’s languages in crisis’
6 Idem Nota 2
7 Sociedade Internacional de Lingüística
8 Associação Lingüística Evangélica Brasileira
Ronaldo Lidório - Extraído da Revista AMEM, nº 13, 3º Trim/2003. pp.12-14.
(gravura: Debret)
(www.wecbrasil.com.br)
Levar a bíblia a todos os povos, em uma língua que possam entender e a um preço que possam pagar - teria sido inspirado na humildade, determinação e coragem de Mary Jones. A admirável determinação de uma menina galesa em conseguir um exemplar da Bíblia inspirou a fundação da primeira Sociedade Bíblica.
Conta-se que as Sociedades Bíblicas, entidades dedicadas à produção e distribuição do Livro Sagrado, em atividades no mundo todo, tiveram sua origem na bela história de uma menina. O lema das Sociedades Bíblicas - levar a bíblia a todos os povos, em uma língua que possam entender e a um preço que possam pagar - teria sido inspirado na humildade, determinação e coragem de Mary Jones, que viveu no Pais de Gales (Gra-Bretanha), durante o século XVIII.
Em 1792, aos 8 anos de idade, Mary Jones começou a acalentar um sonho: ter a sua própria Bíblia. Ela queria poder ler, em sua casa, aquelas histórias tão bonitas que costumava ouvir na igreja. Esse desejo, no entanto, parecia impossível de ser realizado. Mary, que morava em uma pequena vila chamada Alan, ainda não sabia ler - e, infelizmente, não havia escolas nas redondezas. Além disso, naquele tempo, as Bíblias - assim como os demais livros - eram muito raras e caras. Só poucos privilegiados podiam ter um exemplar das Escrituras Sagradas. E este não era o caso da menina, cuja família era muito pobre. Mesmo assim, Mary Jones fez uma promessa a si mesma: um dia, ele teria a sua própria Bíblia.
O Primeiro Passo
Ao completar 10 anos, a menina viu surgir uma oportunidade de aprender a ler. Seu pai foi vender tecidos numa vila próxima, chamada Aber, e soube que ali seria aberta uma escola primária. Tempos depois, quando a escola começou a funcionar, Mary foi uma das primeiras crianças a se matricular. Muito motivada, ela logo se tornou uma das primeiras alunas de sua classe.
Em pouco tempo, aprendeu a ler. Enquanto isso, a menina continuava firme em seu propósito de conseguir a sua Bíblia. Agora que já sabia ler, a grande dificuldade era conseguir a quantia necessária para comprá-la. Para isso, fazia pequenos trabalhos, com os quais ganhava alguns trocados. Pegava lenha na mata para pessoas idosas e cuidava de crianças. Depois, com a intenção de ganhar um pouco mais, a menina comprou algumas galinhas e passou a vender ovos.
Passado o primeiro ano de economias, Mary abriu o cofre para conferir quanto havia guardado. Mas chegou a uma triste conclusão: havia conseguido economizar apenas uma pequena parte do que precisava para comprar a Bíblia. Durante o segundo ano em que estava economizando dinheiro, Mary aprendeu a costurar. Com isso, conseguiu guardar um valor maior - embora não o suficiente, ainda para concretizar o seu sonho.
Mais um ano
Então, no correr do terceiro ano, Mary teve de enfrentar uma acontecimento imprevisto - seu pai, ficou doente e deixou de trabalhar. Por isso, ela teve que dar tudo o que havia economizado durante aquele ano para sua família. E, desta vez, Mary não pode colocar nada no cofre. Mas continuou trabalhando e, no final do quarto ano, conseguiu completar a quantia de que precisava para comprar a Bíblia.
Nessa época, Mary tinha 15 anos de idade. Ela já podia, então, comprar a sua tão sonhada Bíblia. Mas onde iria encontrá-la?
O pastor de sua igreja lhe informou que não era possível comprar Bíblias em Alan, nem nas vilas vizinhas. Ela só conseguiria encontrar um exemplar na cidade de Bala, que ficava a 40 quilômetros dali. Naquela cidade, morava o Rev. Thomas Charles, que costumava ter em sua casa alguns exemplares das Escrituras Sagradas, para vendê-los às pessoas da região. Com esta informação, Mary foi para casa e pediu a seus pais que a deixassem ir a cidade de Bala. No inicio, eles não queriam que ela fosse sozinha. Mas a mocinha insistiu tanto, que os pais acabaram concordando.
Sem sapatos
A longa jornada de Mary Jones foi feita a pé. Pensando em poupar seus sapatos da dura caminhada, a fim de poder usá-los na cidade, ela resolveu ir descalça. Depois de caminhar por todo o dia, por fim, no início da noite, Mary chegou à casa do Rev. Thomas Charles. Ali, no entanto, mais uma dificuldade a esperava: o Rev. Thomas havia vendido todas as Bíblias. Ele ainda tinha alguns poucos exemplares, mas esses já estavam encomendados. Ao receber essa notícia, Mary começou a chorar. Em seguida, mais calma, ela contou a sua longa história ao Rev. Charles. Entao o pastor, comovido, dirigiu-se até um armário, retirou de lá uma das Bíblias vendidas e entregou-a à Mary.
Impressionado com a história daquela menina, o Rev. Thomas resolveu contar o que tinha ouvido aos diretores da Sociedade de Folhetos Religiosos, uma entidade Crista local. Profundamente tocados com a luta de Mary Jones para conseguir seu exemplar da Bíblia, os diretores daquela organizaçao chegaram à conclusão de que experiências como a dela nao deveriam mais se repetir.
Decidiram, então, fazer alguma coisa para tornar a palavra de Deus acessível a todos. E, depois de muito estudo e oração, resolveram organizar uma nova sociedade, com a finalidade de traduzir, imprimir e distribuir a Bíblia.
Foi assim que, no dia 7 de dezembro de 1802, foi fundada a primeira Sociedade Bíblica, que recebeu o nome de Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira.
Depois de ler essa história você não fica motivado a ler a Bíblia? Faça esse propósito de conhecer mais a Palavra de Deus.
(A Bíblia no Brasil - SBB)