27 de novembro de 2009

O TOTEM DA PAZ

Don Richardoson começou falando sobre a figura de Jesus como Cordeiro de Deus, afirmando que Deus dera aos judeus, antes do seu nascimento, a possibilidade de entender que o pecado só pode ser perdoado através do sacrifício substitutivo.

Citando vários exemplos, Richardson defendeu que as culturas de todo o mundo têm, de alguma forma, o testemunho da justiça de Deus. Ele afirmou que os povos têm uma cosmovisão espiritual básica que aponta para um Deus criador e que a idéia de “salvação” engloba a necessidade de uma morte substitutiva. Ele chamou estas referências de “bússolas culturais”: em todas as culturas há a prova de que Deus preparou as nações para ouvir a história da morte redentiva de Cristo.

Um dos povos citados, o Sawi, foi um grupo étnico que habita na Papua Nova Guiné, o qual ele alcançou no início dos anos de 1960. Segundo ele, essa tribo, que na época tinha apenas cerca de 2.600 pessoas, possuía hábitos como cortar a cabeça dos inimigos e exibí-las como troféus, e que vivia em guerra com tribos vizinhas. Para os Sawi, a paz era algo impossível, pois só aconteceria se alguém fosse oferecido como símbolo do pacto da paz, mas ninguém estava disposto a dar a sua vida para isto. Mas, um dia, alguém, num ato de amor, entregou o seu próprio filho. Don Richardson pôde ver, mais uma vez, a “bússola de Deus” apontando para o sacrifício de Jesus.

Ele começou, assim, a contar a história do livro O Totem da Paz, de sua autoria.

Aos apaixonados por Missões, O Totem da Paz é uma leitura imperdível. (Editora Betânia)

20 de novembro de 2009

ANTIOQUIA: DA MITOLOGIA GREGA AO CRISTIANISMO

A igreja tem papel fundamental na construção de uma sociedade moralista, sendo ela o freio da sociedade. O principal objetivo do evangelho foi, e sempre será a salvação de almas, e esta responsabilidade cabe a cada cristão pertencente ao corpo de Cristo. Para o escritor norte-americano Steven Lawson, a igreja do Senhor é o agente de mudança em qualquer ser humano e cultura. Por isso, quando o imperador Nero decretava a morte de cristãos que serviam de esporte em arenas, sabia ele da influência que a pregação do evangelho causava sobre a vida dos cidadãos romanos.

Na cidade de Antioquia da Síria a igreja do Senhor mudou a identificação dada à terceira cidade do império romano, pois a nove quilômetros do centro da cidade, havia um vale chamado de Dafnis. O nome é proveniente de uma lenda da mitologia grega que dizia o lugar ter sido habitação da deusa Diana, a deusa da caça, e com ela algumas ninfas visitavam o local. Certa vez, seu irmão Apolo visitou-a, e lá encontrou uma moça de nome Dafnis. A ninfa fugiu de Apolo que a perseguiu ao ponto de pedir socorro à sua mãe, Terra, que a transformou em um loureiro, dessa maneira o loureiro tornou-se sagrado por Apolo, e o vale de Dafnis passou a ser frequentado e conhecido como um lugar de imoralidades. Tanto era sua influência que Antioquia também era chamada de - Antioquia de Dafnis.

A cidade era famosa pelas práticas perniciosas, imorais, frívolas realizadas juntamente ao vale, mas quando o evangelho começou a ser pregado e, Barnabé, juntamente com irmãos, que haviam se convertido através dos apóstolos em Jerusalém, instituíram a primeira igreja missionária da história do cristianismo. Dezesseis cidades tinham o nome de Antioquia, pois Seleuco Nicator, que era o general preferido de Alexandre, o Grande, a cada batalha vencida, como costume da época, era erigida uma cidade, e esta recebera o nome de Antioquia da Síria. O contexto era totalmente desfavorável para instituição de uma sociedade cristã fundamentada em conceitos, regimentos, normas morais e físicas, mas naquele lugar o trabalho missionário desenvolveu-se de maneira espantosa, pois o lugar que está em trevas impacta-se ao conhecer a luz, e a luz do cristianismo que é Cristo transformou a vida de diversos cidadãos antioquianos.

Num lugar de imorais sexuais, numa terra de promiscuidades, dentre tantos pecados, Antioquia não seria mais conhecida por suas debilidades, mas por marcar a história do evangelho, pois lá começamos a ser chamados de Cristãos.

Calebe Ibaldo Moreno (gideoes.com.br)

13 de novembro de 2009

EMAD - CONQUISTAS E DESAFIOS

Entrevista com o Pr. Elizeu Garcia Martins, diretor executivo da EMAD

Fazer missões sempre foi o grande desafio da Igreja do Senhor Jesus. Com o objetivo de oferecer às igrejas preparo específico aos seus obreiros que sentem-se vocacionados para servir na obra missionária, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) criou, em 1989, a Escola de Missões das Assembleias de Deus (EMAD), que completa este mês (novembro) 20 anos de existência.

Na edição de novembro de 2009 (número 1.494), o jornal Mensageiro da Paz entrevistou o pastor Elizeu Garcia Martins, que está à frente da instituição há cinco anos como diretor executivo. Aos 55 anos, casado com a irmã Mara Sônia Nunes Martins, pai de quatro filhos e apaixonado por missões, pastor Elizeu falou sobre as conquistas da Emad nos últimos anos e os planos para o futuro.

MP Quais os locais onde o senhor trabalhou na obra missionária?

Trabalhel no sul da Espanha, no Estreito de Gibraltar, na cidade de San Roque, a 15km de Aljeciras, o porto mais importante da Europa. Esse local é considerado por causa de sua tonelagem de exportação e trânsito de navios. Ali existia um projeto conhecido como "Passo do Estreito" ou Operação Trânsito. Todos os norte-africanos que vivem na Europa, na época das férias, que ocorrem de julho a setembro, descem de carro até ali e passam esse período nesse local. Estou falando de 2 milhões de pessoas. Tínhamos, então, como evangelizar a todos eles com material apropriado, configurando uma experiência brilhante para mim e minha família.

MP Nestes 20 anos da Emad quais as principais conquistas?

Acredito que as maiores conquistas nesse período foram a maior abrangência da entidade por todo o Brasil e uma conscientização de missões no país. Nós ainda estamos muito aquém de nossos objetivos, mas a Emad avançou muito. Para se ter uma ideia de sua abrangência, estamos com quase 200 núcleos no território nacional e neles já contabilizamos um número superior a 5 mil alunos atuantes na instituição. Para mim, o que chama a atenção é a formação de uma consciência missionária na Igreja do Senhor Jesus.

MP Quais os cursos que a EMAD disponibiliza para as igrejas e os interessados em missões?

A Emad trabalha em duas frentes. Temos o CMC, que é o Curso de Missões por Correspondência, um curso de missões básico elaborado para atender às pessoas de todos os níveis, com uma linguagem bastante acessível para que qualquer pessoa consiga ter um bom desempenho; e o COM, o Curso de Preparação Missionária. Enquanto o CMC é aberto para todas as denominações, o COM está voltado para os membros da Assembleia de Deus, mas a Emad recebe somente alunos que a denominação enviar. Este curso é destinado aos vocacionados à chamada missionária que precisam ter um conhecimento e preparo transcultural. É um curso de internato, onde o aluno permanece 10 meses em nossas instalações. Mas, para isso acontecer, cabe à igreja interessada enviar candidatos maiores de idade, e a pessoa deve apresentar uma grau satisfatório de ensino, pois ele será preparado para o campo missionário. É preciso que tenha tambem pelo menos um curso básico de Teologia, porque o objetivo da Emad não é a formação acadêmica, mas o preparo para missões transculturais. Ali o aluno vai estudar antropologia, comportamento das pessoas em relação às culturas, a ética, princípios para que a pessoa consiga sobreviver sem levar resquícios de sua cultura para o outro povo, mas simplesmente levar a mensagem de Cristo.

MP O senhor acredita que o Brasil poderá ser o novo ''celeiro missionário" do mundo?

Fui missionário na Espanha e na Califórnia, e enquanto estive na Europa o Senhor me levou a conduzir um centro de treinamento missionário destinado aos latinos para o continente e o norte da África. Convivi nesse meio e sei que há um desejo de que o Brasil medite no que Deus está fazendo com o nosso país e veja mais adiante, levando a mensagem do Evangelho a outras nações. Há bilhões de pessoas que ainda não foram alcançadas e o Brasil é realmente um celeiro. Nosso povo desfruta de uma bênção incontestável, pois não há porta fechada para um brasileiro. Existem portas fechadas para a maioria das nações, que enfrentam restrições, mas um cidadão brasileiro tem portas abertas em qualquer lugar do mundo. Isso é uma bênção de Deus. Ele reservou isso para nós, e o Senhor preparou esta nação para se mobilizar e fazer algo para que os povos tenham a mesma oportunidade que nós tivemos um dia, de ouvir que Jesus Cristo é o Caminho e que sem Ele não há outra maneira de ser salvo. Os cristãos brasileiros devem entender que esta é nossa oportunidade, este é o nosso tempo, e o mundo clama.

MP Quais os projetos futuros da Emad?

O projeto que temos em nosso coração, e o Senhor está fazendo cumprir, é a multiplicação de nossos núcleos por todo o Brasil, considerando que nosso país é um verdadeiro continente. Meu desejo é que 20 mil alunos estejam inscritos inscritos por todo o Brasil, ou mesmo 30 mil alunos. Afinal, nós, assembleianos, somos uma comunidade de cerca de 20 milhões de pessoas. Procuramos contribuir para que esta visão seja ampliada. A direção da Emad deseja contribuir nesse sentido e este é um dos objetivos da instituição ao ser criada pela CGADB. Atualmente, estão inscritos mais de 5 mil alunos, mas já emitimos quase 25 mil certificados de pessoas que concluíram o curso na Emad. Nosso projeto é apresentar o Curso Elevado de Missões à Distância, norteado pela estrutura do ensino à distância, mas com toda a estrutura online através da internet com 20 pastores que estão escrevendo a grade do curso dentro de uma linha pentecostal da liderança das Assembleias de Deus, e a Casa Publicadora estará nos apoiando a fim de disponibilizá-lo aos interessados, e este curso será oferecido para a liderança missionária no Brasil. Queremos estimular uma conscientização em toda a igreja, no sentido de despertá-Ia para a necessidade de capacitar todos aqueles que estão de saída para o campo missionário e no sentido de preparar a liderança que trabalha com os vocacionados. Esse curso da Emad tem esse perfil para que tenhamos a mesma linguagem, postura e desempenho dentro das características das Assembleias de Deus.

4 de novembro de 2009

MISSÃO A PARTIR DE ANTIOQUIA

Por John Stott (28/04/07)

Em Atos 13 o horizonte de Lucas se alarga pois o nome de Jesus seria massivamente testemunhado além da Judéia e Samaria. A partir de Antioquia chegaria aos confins da terra. Os dois diáconos evangelistas prepararam o caminho. Estevão através de seu ensino e martírio, Filipe através de sua evangelização ousada junto aos samaritanos e ao etíope. O mesmo efeito tiveram as duas principais conversões relatadas por Lucas, a de Saulo, que também fora comissionado a ser o apóstolo dos gentios, e a de Cornélio, através do apóstolo Pedro. Evangelistas anônimos também pregaram o evangelho aos “helenistas” em Antioquia. Mas sempre a ação esteve limitada à Palestina e à Síria. Ninguém tinha tido a visão de levar as boas novas às nações além mar, apesar de Chipre ter sido mencionada em Atos 11:19. Agora, finalmente, vai ser dado esse passo significativo. A população cosmopolita de Antioquia se refletia nos membros de sua igreja e até mesmo em sua liderança, que consistia em cinco profetas e mestres que moravam na cidade. Lucas não explica a diferença entre esses ministérios, nem se todos os cinco exerciam ambos os ministérios ou se os primeiros três eram profetas e os últimos dois mestres. Ele só nos dá os seus nomes. O primeiro era Barnabé, que foi descrito com “um levita, natural de Chipre” (Atos 4:36). O segundo era Simeão que tinha o sobrenome de Níger, que significa Negro, provavelmente um africano e supostamente ninguém menos que Simão Cireneu, que carregou a cruz para Jesus. O terceiro era Lúcio de Cirene e alguns conjecturam que Lucas se referia a si mesmo o que é muito improvável já que ele preserva seu anonimato em todo o livro. Havia também Manaém, em grego chamado o “syntrophos” de Herodes o tetrarca, isto é, de Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande. A palavra pode significar que Manaém foi “criado” com ele de forma geral ou mais especificamente que era seu irmão de leite. O quinto líder era Saulo. Estes cinco homens simbolizavam a diversidade étnica e cultural de Antioquia e da própria igreja.

Foi quando eles estavam “sevindo ao Senhor, e jejuando” que o Espírito Santo lhes disse: “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At.13:2). Algumas perguntas precisam ser respondidas.

1. A quem o Espírito Santo revelou a sua vontade ? Quem eram “eles”, as pessoas que estavam jejuando e orando ?

Parece-me improvável que devamos restringi-los ao pequeno grupo dos cinco líderes, pois isso implicaria em três deles serem instruídos acerca dos outros dois. É mais provável que se referia aos membros da igreja como um todo já que eles e os líderes são mencionados juntos no versículo 1 de Atos 13. Também em Atos 14:26-27, quando Paulo e Barnabé retornam eles prestam conta a toda a igreja por terem sido comissionados por ela. Possivelmente Paulo e Barnabé já possuíam anterior convicção do chamado de Deus e esta verdade foi aqui revelada para toda a igreja.

2. Qual o conteúdo da revelação do Espírito Santo à Igreja em Antioquia ?

Foi algo muito vago e possivelmente nos ensina que devemos nos contentar com as instruções de Deus para o dia de hoje. A instrução do Espírito Santo foi “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”, muito semelhante ao chamado de Abrão: “vai para a terra que te mostrarei”. Na verdade em ambos os casos o chamado era claro mas a terra e o país não.

Precisamos observar também que tanto Abrão como Saulo e Barnabé precisariam, para obedecerem a Deus, darem um passo de fé.

3. Como foi revelado o chamado de Deus ?

Não sabemos. O mais provável é que Deus tenha falado à igreja através de um de seus profetas. Mas seu chamado também poderia ter sido interno e não externo, ou seja, através do testemuho do Espírito em seus corações e mentes. Independente de como o receberam, a primeira reação deles foi a de orar e jejuar, em parte, ao que parece, para testar o chamado de Deus e em parte para interceder pelos dois que seriam enviados. Notamos que o jejum não é mencionado isoladamente. Ele é ligado ao culto e à oração, pois raras vezes, ou nunca, o jejum é um fim em si mesmo. O jejum é uma ação negativa em relação a uma função positiva. Então jejuando e orando, ou seja, prontos para a obediência, “impondo sobre eles as mãos os despediram”.

Isto não era uma ordenação ao ministério muito menos uma nomeação para o apostolado já que Paulo insiste que seu apostolado não era da parte de homens, mas sim uma despedida, comissionando-os para o serviço missionário.

4. Quem comissionou os missionários?

De acordo com Atos 13:4 Barnabé e Saulo foram enviados pelo Espírito Santo que anteriormente havia instruído a igreja no sentido de separá-los para ele. Mas de acordo com o versículo seguinte foi a igreja que, após a imposição de mãos, os despediu. É verdade que o ultimo verbo pode ser entendido como “deixou-os ir”, livrando-os de suas responsabilidades de ensino na igreja, pois às vezes Lucas usa o verbo “adulou” no sentido de soltar. Mas ele também o usa no sentido de dispensar. Portanto creio que seria certo dizer que o Espírito os enviou instruindo a igreja a fazê-lo e que a igreja os enviou, por ter recebido instruções do Espírito. Esse equilíbrio é sadio e evita ambos os extremos. O primeiro é a tendência para o individualismo pelo qual uma pessoa alega direção pessoal e direta do Espírito sem nenhuma referencia à igreja. O segundo é a tendência para o institucionalismo, pelo qual todas as decisões são tomadas pela igreja sem nenhuma referencia ao Espírito.

Conclusão

Não há indícios para crermos que Saulo e Barnabé eram voluntários para o trabalho missionário. Eles foram enviados pelo Espírito através da igreja. Portanto cabe a toda igreja local, e em especial aos seus líderes, ser sensível ao Espírito Santo, a fim de descobrir a quem ele está concedendo dons ou chamado.

Chamado missionário não é um ato voluntário, é uma obediência à visão do Senhor.

Assim precisamos evitar o pecado da omissão ao deixarmos de enviar ao campo aqueles irmãos com clara convicção de que foram chamados por Deus, bem como a precipitação de o fazermos com outros que possuem os dons para tal, mas sem confirmação do Espírito à igreja.

O equilíbrio é ouvir o Espírito, obedecê-lo e fazer da igreja local um ponto de partida para os confins da terra.

John R. W. Stott é conhecido pregador e estudioso da Palavra. Pastoreou por vários anos a Igreja de All Souls em Londres. É diretor do London Institute for Contemporary Christianity e autor de diversos livros como “A mensagem do sermão do Monte”, “A mensagem de Efésios” e “Crer é também Pensar”.

(www.mssionews.com.br)

27 de outubro de 2009

PIETA E SEU PORQUINHO COR-DE-ROSA

"Pieta, esse é seu único vestido?", perguntou a missionária. A menina filipina, de semblante triste, timidamente olhou para ela. Então explicou: "Meu senhor é espanhol. Meu pai me vendeu para ele há muito tempo para pagar uma dívida. Ele não me deixa usar outro vestido, senão este feito de pano de saco".

A senhora Wightman, a missionária, olhou com pena para aquele pobre vestido. Era apenas um saco de farinha, velho e desbotado, virado de cabeça para baixo. Buracos rudes tinham sido feitos em baixo e nos lados do saco, para passarem a cabeça e os finos braços da menina. "Deixe-me fazer-lhe um vestido, Pieta", disse a senhora impulsivamente. "Seu senhor não irá ligar se ele não tiver que pagar, não é?"

Um olhar de medo atravessou o rosto da menina, enquanto ela abanava a cabeça vigorosamente. "Obrigada, mas a senhora não entende. Meu senhor é um beberrão e mui cruel. Se eu chegasse em casa com um vestido novo, ele ficaria desconfiado e bravo. Ele me espancaria e depois venderia meu vestido para comprar mais bebida. Ele diz que escravos devem usar as coisas mais fajutas porque não custam nada".

A senhora Wightman, uma jovem missionária nas Ilhas Filipinas, estava dando aulas diárias para crianças num grande pavilhão. Ela tinha descoberto que a hora da "siesta" (descanso depois do almoço) era uma ótima hora para ajuntar as crianças, pois os pais estavam contentes em tê-las longe de suas casas, para que eles pudessem descansar em paz. A classe tinha crescido e mais de cem meninos e meninas vinham correndo assim que a missionária aparecia. Quando as crianças entravam alegremente e barulhentas, Pieta ficava triste atrás das outras crianças com seu vestido gasto.

Um dia, a missionária chamou Pieta novamente ao seu lado. "Eu já decidi a respeito do seu vestido. Vou fazer-lhe um bonito vestido, igual ao que as outras meninas usam. Todo dia eu o trarei comigo para a classe e você o vestirá antes que os outros cheguem. Você poderá usá-lo enquanto as crianças estiverem aqui e, ao sair, o deixará comigo. Gostaria de fazer isto?"

O olhar de Pieta foi a resposta. "Oh! A senhora poderia fazê-lo de cor-de-rosa e com babados, por favor?" Ela sussurrou alegremente.

Nos dias seguintes, a radiante Pieta em seu bonito vestido cor-de-rosa, sentava na primeira fileira; seu faminto coração acolhia cada palavra das histórias bíblicas.

Era a Páscoa e a senhora Wightman contou a história do sofrimento e morte do Salvador Jesus pelos pecados do mundo. Inesperadamente, Pieta a interrompeu:

"Eu sei o que mais machucou o Senhor Jesus".

"O que você quer dizer, Pieta?"

"Algumas vezes, quando eu tenho sido malvada, o meu senhor fica bravo comigo e me pendura na cerca", disse a menina. "Ele amarra arame em volta do meu corpo até eu pensar que vou morrer. O arame machuca meus pulsos e a dor se espalha por todo o corpo, mas a dor mais terrível é bem aqui!" E ela passa a mão no seu coração. "É a dor mais terrível de todas e eu tenho certeza que foi isto que mais machucou o Senhor Jesus".

A missionária ficou chocada ao ouvir do tratamento cruel que a menina tinha sofrido, mas continuou: "Você está certa, Pieta. O Senhor Jesus sofreu mais no Seu coração. Não só por causa da terrível dor da crucificação, mas porque todos os nossos pecados foram postos nEle por Deus e então Deus O deixou sozinho para sofrer o castigo que nós merecíamos".

"Oh! Eu queria que Ele tivesse morrido por mim, também!" Pieta falou com ansiedade marcada em sua voz.

"Ele morreu por você, Pieta", assegurou-lhe a missionária. "Você pode recebê-Lo como seu Salvador agora mesmo!"

"Mas a senhora se esqueceu que eu sou uma escrava? Escravas não podem ser salvas, pois meu senhor me disse que uma escrava não tem alma".

Quão feliz estava a sra Wightman em poder contar-lhe a hïstória de Onésimo, no livro de Filemom. Apesar de ser um escravo e de ter pecado grandemente, Onésimo tinha aceitado o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador e foi perdoado. Então ela pediu a Pieta que, depois da aula terminar, ela ficasse para poderem conversar juntas.

Quando estavam sozinhas, depois dos outros terem ido embora, lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Pieta. "É maravilhoso que o Senhor Jesus me ama! Eu não consigo lembrar-me de outra pessoa que me tenha amado. Mas eu receio que sou muito ruim para pertencer a Ele!"

"Como assim, Pieta?"

"As vezes, meu senhor me manda à loja para comprar um repolho e eu lhe roubo uma das moedas para comprar um doce para mim. Outras vezes, quando ele é cruel para mim, eu cuspo na água que retiro da cisterna; outras vezes... bem, faço muitas coisas feias!"

"Pieta, é por causa destas coisas que o Senhor Jesus morreu. Jesus já pagou o castigo que você merece, ao morrer sobre a cruz. Ele quer ser seu Salvador".

"Eu quero pertencer a Ele? Como posso dizer-Lhe que eu O quero?"

"Você está lembrada do corinho que cantamos hoje, aquele que diz: 'Lava-me e serei mais branco que a neve'? Por que você não pede para o Senhor Jesus fazer isto por você agora mesmo?"

Olhando para o céu, Pieta orou com simplicidade: "Senhor Jesus, lava-me e serei mais branca que a neve". Depois de um momento, ela disse tristemente, olhando para sua professora: "Ele não o fez. Eu me sinto como antes".

"Escute este versículo, Pieta: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo. O que a palavra "crê" significa na sua língua?"

"Significa 'confiar em alguém, aceitar que é assim', ela respondeu pensativa. "Já sei! Eu Lhe pedi que me deixasse mais branca que a neve. Não importa como eu me sinta. Eu posso confiar que Ele cumprirá Sua promessa e o fará!" O rosto molhado de lágrimas começou a brilhar. "Espere até eu contar para o meu senhor! Eu acho que ele não sabe nada sobre isto e eu quero que ele também seja salvo, pois ele é tudo que eu tenho".

No dia seguinte, quando a missionária ajudava Pieta a vestir o seu vestido cor-de-rosa, ela notou uma porção de machucados em seu magro corpo. Pieta explicou: "Meu senhor me xingou e disse que o que a senhora me ensina é tudo mentira e, depois, me bateu. Não sei porque ele estava bravo. É uma história tão boa! Ajude-me a orar para que um dia ele entenda que é uma história verdadeira a história de Jesus". E perguntou: "Haveria alguma coisa que eu pudesse fazer pelo Senhor Jesus por ter me amado tanto?"

A sra. Wightman deu-lhe a responsabilidade de todo dia varrer o pavilhão e, daquele momento em diante, ele estava tão lindo como uma menininha poderia deixá-lo.

Então vieram os dias de muita chuva e de vento. Ventos do nordeste curvavam os coqueiros e as bananeiras até o solo, arrancavam o telhado das casas e jogavam grandes ondas sobre a ilha. Torrentes de água caíam com fúria, era uma chuva que parecia interminável. Era um dos terríveis furacões e, quando a tempestade terminou, muitos estavam desabrigados e alguns tinham morrìdo.

Quando puderam ter novamente sua aula, os meninos e as meninas tinham muitas histórias excitantes para contar e algumas eram histórias bem tristes. A missionária reparou que Pieta estava sentada em seu lugar de costume, mas que não estava sozinha! A seu lado havia um porquinho cor-de-rosa!

"Ora, Pieta, de onde veio este porquinho?"

"Ele é todo meu!" Pieta respondeu com orgulho. "Quando a água corria por nosso quintal, este porquinho veio flutuando nela. Eu pensei que ele estava morto e quase estava. Eu o peguei com um pau e cuidei dele e agora está melhor. Eu já perguntei em todas as casas, mas ninguém sabe de onde ele veio ou quem é seu dono. Então, agora é meu!"

"Isto é muito bom", sorriu a missionária. "Mas seria melhor deixá-lo em casa, pois esta é uma classe para meninos e para meninas e ele poderá atrapalhar a aula".

O medo brilhou nos olhos escuros de Pieta. Ela pegou seu porquinho e o segurou com força. "Não! Não! Não! Eu nunca poderia deixá-lo em casa. Se ele não pode vir, eu tenho que ficar em casa com ele. A senhora não entende. Se eu o deixar em casa, meu senhor pode comê-lo ou vendê-lo e ele é meu porquinho! Ele é a única coisa que eu jamais tive que é toda minha. Ele é para mim algo muito importante!"

"Por que ele é tão importante assim para você?", perguntou a sra. Wightman.

"Quando ele estiver grande, gordo e forte, então eu o darei ao Senhor Jesus. Ele já me deu tanto e eu nunca tive nada para dar a Ele. Eu não estou deixando meu senhor alimentá-lo porque aí ele diria que o porco lhe pertence. Eu estou pedindo comida e lavagem aos vizinhos".

"Eu entendo, Pieta", assegurou-lhe a missionária. "Se você conseguir que ele fique quieto para não nos atrapalhar, você pode trazê-lo sempre".

E assim, o porquinho de Pieta se tornou um fiel membro da classe. Passaram-se semanas e até meses e a sra. Wightman podia ver que a menininha filipina estava tornando-se uma cristã firme. Seu porco também crescia! Um dia, ele apareceu com um laço vermelho em volta de seu gordo pescoço e o sorriso no rosto de Pieta levou sua professora a perguntar: "Hoje é um dia especial, Pieta?"

A menina disse com entusiasmo que "Hoje é o dia que quero dar meu porco ao Senhor. Veja como ele está grande e gordo! Eu não gosto do jeito como meu senhor fica olhando para ele. Amanhã é seu aniversário e eu receio que ele deseje fazer uma festa para seus amigos com meu porco. A senhora daria ele para o Senhor Jesus por mim, hoje?"

Depois de pensar cuidadosamente, a missionária perguntou: "Você gostaria que eu o levasse ao mercado e o vendesse? Poderíamos usar o dinheiro para comprar Bíblias e livrinhos que contam a história da salvação para darmos a pessoas que não ouviram do Senhor Jesus".

Pieta concordou e, depois da aula, a sra. Wightman e o porco de Pieta foram ao mercado. No dia seguinte, Pieta não veio à aula.

Quando três dias se passaram sem ela vir, a sra. Wightman perguntou se alguém sabia se ela estava doente. As crianças se entreolharam com medo. Então um menino disse: "A senhora não sabe? O senhor dela ficou tão bravo quando descobriu que ela tinha vendido seu porco e nem tinha o dinheiro que lhe bateu muito. Ele tinha planejado fazer uma festa com seus amigos. Surrou-a com tanta crueldade que um olho já foi e pensamos que ela está morrendo!"

Horrorizada e com temor no coração, a missionária despediu as crianças e correu para a pequena casa onde tinha sido informada que Pieta vivia com o espanhol. Era uma típica casa de um quarto, construída sobre paus para ficar por cima das águas durante as enchentes. Embaixo da casa, no meio dos porcos, frangos e lavagem, ela viu Pieta.

Engatinhando para baixo da casa, a missionária sentou ao seu lado e pegou a criança doente em seus braços. A pele quente de Pieta indicava a forte febre de que estava possuída e, enquanto a segurava, a menina teve uma convulsão. Lágrimas escorreram pelo rosto da missionária e ela disse: "Oh, Pieta! O que ele fez para você? O que ele fez para você?"

O pequeno corpo estava imóvel em seus braços. Após algum tempo a menina recuperou a consciência. Olhando para ela com seu único olho, Pieta perguntou com voz fraca: "A senhora está chorando? Por que está chorando? A senhora não está chorando por mim, está?"

A missionária não conseguiu responder e Pieta continuou: "Não chore por mim! Eu estarei no céu com o Senhor Jesus logo, logo, e estou tão contente por isso! Por favor, nâo chore por mim, eu mal posso esperar".

Então a sra. Wightman perguntou: "Você acha que conhecerá o Senhor Jesus quando estiver com Ele?"

Pieta respondeu: "Claro que O conhecerei! Ele é o único que terá marcas de pregos nas mãos e nos pés!" Após um minuto, ela sussurrou, olhando para cima de novo: "Quando eu for, a senhora orará por meu senhor, não é? Ele é tudo que eu tenho e eu quero que ele se salve".

Foi difícil para a sra. Wightman responder, pois as lágrimas a engasgavam. Ela sentia tanto ódio contra aquele homem, mas Pieta esperava a resposta e, finalmente, ela conseguiu falar: "Sim, Pieta, eu orarei por sua salvação".

Em poucos minutos, Pieta ficou imóvel em seus braços e a missionária percebeu que seu espírito tinha ido para junto do Salvador a Quem ela tanto amava. Segurando o corpo mole da criança, ela saiu de debaixo da casa e lentamente subiu os degraus. Abrindo a porta com o pé, ela entrou no quarto onde estava o espanhol, com uma garrafa na mão.

Por um momento, a missionária e o homem se encararam. Então, a senhora Wightman disse: "Olhe para Pieta! Ela está morta! Você a matou!"

"E eu com isso?", respondeu grosseiramente o homem. "Ela não tinha alma. Ela era somente uma menina escrava e eu tinha o direito de fazer o que queria com ela. Ela era minha propriedade".

A missionária estava tremendo, mas conseguiu responder: "Sim, ela tinha uma alma e você sabe disso. Pieta agora está no céu. Você é um assassino cruel aos olhos de Deus".

"Saia daqui! Eu não tenho nada a ver com Deus e nem com as coisas que você ensina! Saia daqui!"

"Eu irei num instante, mas antes tenho algo a lhe dizer. Um pouco antes de morrer, Pieta me pediu para fazer algo muito difícil. Ela pediu-me que orasse por você. Ela o amava, apesar de sua crueldade, e queria que se salvasse do castigo etemo. Eu guardarei minha promessa feïta a Pieta. Eu orarei para que Deus lhe mostre como você é pecador e que você venha a Ele para obter Seu perdão".

Em casa, a missionária lavou os machucados de Pieta e a vestiu com seu vestido cor-de-rosa de que ela tanto gostava. Com alguns crentes filipinos, tiveram um enterro cristão. Então a sra. Wightman contou-lhes a história toda e lhes pediu: "Orem comigo para que este homem cruel aceite o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador".

Eles concordaram em orar e orar continuamente, até que este homem fosse salvo. Durante a quarta noite de oração, eles escutaram passos. Olhando para fora, viram o espanhol, cambaleando para dentro do quarto onde eles estavam.

"Há misericórdia em Deus para um homem tão cruel como eu?", ele perguntou. Seus olhos estavam vermelhos e parecia que não tinha comido nem dormido por algum tempo.

Caindo de joelhos, o homem esvaziou seu coração perante Deus, confessando o seu pecado e sua necessidade de Cristo como Salvador. Os crentes mostraram-lhe pela Palavra de Deus que a morte do Senhor Jesus no Calvário tinha pago a sua dívida e ele recebeu o dom da salvação de Deus.

A mudança na vida deste homem foi vista por todos. Imediatamente ele foi ter com seus colegas e lhes compartilhou o que Deus tinha feito por ele. Logo o seu testemunho estava ganhando outros para o Salvador.

A guerra veio com todos os seus horrores. Pearl Harbour foi bombardeada e os japoneses estavam em todo lugar, forçando os filipinos a se prostrarem diante do Imperador japonês. Um dia, o espanhol recebeu ordem para se prostrar.

Sem medo, ele disse que não, pois só adoraria o Deus vivente que o tinha salvo dos seus caminhos cruéis.

Houve um momento de espanto e de silêncio! A ordem foi repetida furiosamente. "Prostre-se para o Imperador ou morra!"

O espanhol não se moveu.

Uma ordem foi seguida de tiros e o espanhol estava com o Salvador a Quem ele aprendera a amar até à morte, e com Pieta, em resposta à sua oração!

Pieta e seu porquinho cor-de-rosa
"Histórias Missionárias para Adolescentes"
Margaret J. Tuininga - Edições Cristãs, 1985